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A Voz do Ventre (contos de Taquiti 3)

Neste capítulo dos Contos de Taquiti, a índia Játáti enfrenta uma gravidez onde os limites entre a realidade, os sonhos e o delírio começam lentamente a se esvanecer, levando-a a crer que seu filho é extraordinário.

 

Jovem india Timbira grávida recebendo um ingá de um macaco-prego (by chatGPT)

Ainda não havia amanhecido por completo quando Takwyiti deixou a aldeia. A chuva caía insistente desde a madrugada, criando pequenos córregos pelo caminho. Ela vinha de pé descalço. Seus pés estavam acostumados às irregularidades do terreno, à cada raiz saliente que devia ser contornada para não tropeçar, aos baixios onde se formavam as poças de lama nos dias de chuva como este. A terra vermelha, amolecida pela chuva, cedia sob seus calcanhares e se insinuava entre os dedos. De vez em quando, ela tinha de parar para retirar uma folha ou um graveto que se prendia à sola do pé. Takwyiti caminhava sem pressa, mas sem hesitar. Conhecia aquele percurso desde menina.

Ao se aproximar da casa de seu patrão, a chuva pareceu diminuir. Ela então enfiou os dedos ágeis e calejados no cabelo e ajeitou as mechas na tentativa de melhorar um pouco a sua aparência. Em seguida, esticou o vestidinho de chita que estava aderido ao seu corpo molhado e torceu a sua barra empapada d’água. Agora sim ela estava pronta para mais um dia de trabalho!

Quando a porta se abriu, as crianças vieram correndo excitadas:

- Nhá Taquiti conta uma história? Por favor! Hoje tá chovendo e a gente não pode brincar lá fora. 

-Tá bom. Vamu se acalmá senão eu não lembo onde parei ontem. Ah, sim! – disse ela enquanto acabava de lavar os pés e os colocava para secar em frente ao fogão à lenha.

“A época das chuvas começou mais cedo na região do médio Rio Tocantins naquele ano. O tempo parecia coisa de doido: na época do amcró, a seca tinha sido terrível; com a chegada da época de ta’ti, veio aquele aguaceiro sem fim! Mas ao menos a queda da temperatura trazida pelas chuvas fazia com que os índios se sentissem cheios de energia: a aldeia zumbia excitada como um vespeiro.

Apesar do ar mais fresco, as mulheres andavam aborrecidas, pois o fim inesperado da estiagem interrompera as queimadas. Como elas fariam para plantar os roçados de milho, mandioca e bata-doce se as terras ainda estavam cobertas de mato? Era nisso que Játáti pensava naquela manhã enquanto uma cortina dágua escorria pelo teto de palha da sua oca e ela reunia forças para começar seu dia de trabalho.

Com as primeiras chuvas, apareceram brotos, flores, frutos e insetos por todo o lado. A mata estava em festa! Guinchos de macacos soavam no topo das árvores e Játáti se perguntou por onde andaria Rorê. Ele já tinha dez anos. Era forte, curioso e independente - difícil de controlar. Passava as noites inteiras na mata, na companhia de um bando de macacos da sua espécie, os macacos-prego. Só aparecia quando estava com fome, ou quando era chamado por sua mãe adotiva, a quem continuava fortemente apegado.

Como se tivesse recebido uma mensagem telepática de Játáti, Rorê surgiu pulando ágil de galho em galho até aterrissar no colo dela. Seu corpo molhado tremia de frio. Ele não se fez de rogado e abraçou-se a ela para roubar um pouquinho de calor que emanava daquele corpo que parecia um forno desde que a barriga dela começara a crescer. Ele vinha agarrado a um ingá, o primeiro da estação, trazido como oferenda para o café da manhã. Rorê bem sabia que ela era doida por ingá e que, devido à gravidez, tinha desejo de comer frutas o tempo todo.

Játáti se levantou naquela manhã presa de um mal-estar. Desde que a barriga começara a crescer, coisas estranhas se passavam com ela. Após lavar o rosto e as mãos no córrego, ela sentou-se para comer o ingá que Rorê havia trazido. Ela mal abriu a vagem comprida e enfiou os dentes na polpa branca e macia que envolvia as sementes quando escutou um barulho vindo do seu ventre. Colocou as duas mãos sobre a pele da barriga, esticada feito tambor, e sentiu a criança se mexer feito peixinho, causando cócegas aqui e ali. Ela então olhou surpresa para Rorê, que estava sentado ao seu lado e perguntou:

- Você o ouviu falar?

O macaco resmungou baixinho e coçou a cabeça olhando para ela.

- Ele disse que adora ingá e que amanhã você deve procurar lá para o lado do igarapé, próximo à mata de Jenipapeiros e embaúbas, onde os frutos são mais doces.

- Deixa de dizer besteira, menina, que os -kra que ainda tão na barriga não falam com a mãe – disse a mulher do pajé, que entendia das coisas. 

- Mas o meu -kra fala! Nesta noite eu vi Kupepuxititi, o Pai da Mata. Ele me apareceu em sonho e me explicou o que acontece toda vez que eu me banho nas águas do igarapé. Sempre sinto que minha barriga fica tão leve quando entro na água e que o rio se enche de peixes ao meu redor! Ele me disse que isto acontece porque meu filho sai da barriga e vira peixe. Quando ele fica cansado de tanto nadar, entra de novo na barriga para voltar à aldeia e dormir. Quando acordei esta manhã, ainda podia ouvir meu filho-peixe se debatendo nas poças de água da chuva em frente a minha oca.

A mulher do pajé caiu na gargalhada, incrédula.  Játáti então se levantou de cara amarrada e voltou para sua oca de cabeça baixa. “

- Tem dias que a gente não deveria sair da rede – disse Takwyiti com um muxoxo, olhando pela janela a chuva que não parava de cair.

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Tags: indios TimbiraAmazôniamédio Rio Tocantinspovo Gavião Parkatêjê

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