Espelho Cósmico
Neste conto, uma mulher reflete sobre o contato avassalador que ela teve com um alien na noite anterior, durante uma viagem de férias pela Amazônia, e sobre o futuro.

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Sentada sobre um deck às margens do Rio Negro, escuto o canto do urumutum, anunciando que a noite enfim está partindo e o sol já vai nascer. Um ribeirinho emerge da neblina densa que repousa mansamente sobre as águas do rio. Ele vai sentado em sua piroga, mal rompendo com seu remo a superfície líquida de cor róseo-azulada que reflete o alvorecer. Fecho os olhos e consigo sentir o ar frio que acaricia a sua pele e os movimentos cadenciados dos seus braços, que obedecem a um ritmo ancestral. Um estado de paz absoluta acompanha aquele homem, que cruza os rios do Amazonas sob o sortilégio do canto grave e pausado do urumutum.
Dentre os sons que emanam da mata, distingo os embates de um pirarucu solto no fundo daquela canoa, revoltado contra a sensação de queimação causada pela passagem de ar seco em suas guelras. Desperto de seu encanto pela agitação do peixe, o barqueiro recolhe as pernas sob o banco da piroga. Naquele mesmo momento sinto em mim a aspereza causada pelo atrito das solas dos seus pés que escorregam sobre a areia e folhas secas acumuladas no fundo da canoa.
Pousado no Buriti que se ergue majestoso às margens do rio, o urumutum se agita e inclina a cabeça para o lado, acompanhando com os olhos o movimento do barco, sem emitir um só pio. Ao ver que os respingos d’água lançados ao ar pela cauda do peixe refletem os primeiros raios de sol, ele dá as boas-vindas ao novo dia arrepiando sua plumagem castanho-avermelhada.
Não sei o que se passa comigo. O que até ontem me movia, agora perdeu o sentido, virou poeira cósmica e partiu para os confins do universo. Desde que minha alma foi abduzida por aquele par de olhos enormes e doces, as fronteiras do meu ser se dissolveram, e fui invadida por uma sensação avassaladora de fusão com tudo o que é vivo.
Não lembro de como tudo começou. Só sei que quando abri os olhos, mal podia me mover, o corpo todo vibrava, meu quarto parecia dissolver-se em uma intensa luz azul, vestígio de uma outra dimensão. Foi quando reparei na presença dele, imóvel ali no canto da peça. Seus olhos brilhantes e fixos em mim refletiam minha imagem como um espelho, desprovidos de paixões ou de desejos.
Foi naquele instante que se iniciou esse zumbido que não abandona mais meus ouvidos e uma sensação de vertigem, como se meu corpo estivesse prestes a flutuar. Mal posso fechar os olhos, pois sinto como se eu deixasse de ser uno. Posso ser dois, ou três, ou mil, conforme minha atenção muda o foco para outros seres e minha mente é invadida pelos seus pensamentos e sensações. Tenho de aprender a me dominar!
Eu, que nunca fui mística, nem acreditei em aliens, vivi naquele instante a experiência mais emocionante de toda a minha vida. Digo ‘instante’, mas pareceram dias. Vi o vazio profundo do espaço sideral que habitava aqueles olhos gigantes se transmutar em meus pensamentos e emoções mais íntimos, em meus traumas e medos reprimidos. Nunca me senti tão vulnerável como quando vi minha alma exposta pelo avesso àquele olhar atento. Mas não havia vergonha, não havia pudor - somente intimidade. Minhas experiências ancestrais foram pouco a pouco sendo substituídas na tela dos seus olhos pela visão de mapas estelares e da vida em outros mundos. Foi então que, quase sem perceber, tudo começou a mudar ao meu redor.
Cercada por luzes intensas, percebi que, ao invés de continuar em meu quarto, eu agora me encontrava em uma sala vazia, cujas paredes eram curvas e muito lisas. Aos poucos comecei a distinguir uma plateia silenciosa de seres de diferentes formas e dimensões que me cercavam. Quando cobri minha boca para suprimir um grito, o mais alto deles elevou sua mão em um aceno e me transmitiu telepaticamente uma mensagem: “Não tenha medo”. E toda a minha ansiedade desapareceu como num passe de mágica...
No instante em que o líder deles tocou minhas têmporas com seus dedos longos, minha mente foi invadida por uma quantidade massiva de imagens que contavam a história de seu planeta, detalhes sobre a organização que rege as relações interplanetárias e o futuro do planeta Terra, caso a humanidade permaneça na atual rota autodestrutiva. Fui invadida por uma emoção profunda - mistura complexa de amor, vergonha e arrependimento - que me encheu os olhos de lágrimas. Reparei que, em um único movimento contínuo e orquestrado, eles inclinavam seus rostos e me fitavam assim meio de lado, o mesmo gesto exibido há pouco pelo urumutum. Estavam maravilhados pelos mistérios da alma humana! Uma nova onda de paz inundou minha alma e subitamente me vi devolvida ao meu quarto, de onde parecia ter saído há tantos séculos.
E agora, o que será de mim, de nós todos? Por que eu? Por que me mostrar essas visões apocalípticas se não tenho poder para salvar a humanidade? Como vou poder continuar a minha vidinha de um dia após o outro, recheada de mediocridade e egoísmo? Será que alguém vai acreditar nesta minha história? Você acredita?
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