Játáti Descobre o Paraíso (contos de Taquiti 2)
Neste capítulo de uma história ambientada em uma aldeia indígena Timbira situada no médio Rio Tocantins (Amazônia), a babá índia conta às crianças brancas a etapa de vida de sua avó Játáti, em que ela se torna adulta e encontra sua cara metade.
Ilustração criada pelo chatGPT de uma índia Timbira preparando paparutos
- Deita logo, meus -kra, para que eu possa começar a contar história. Onde foi que nóis paremo ontem? – perguntou a babá índia às duas crianças brancas de quem ela cuidava desde que haviam nascido.
- Nhá Taquiti contou a infância de Játáti e de Rore.
- Sê criança é bom, né? Mas a infância de todo mundo acaba um dia. Até vocês também vão virar gente grande. E quando se torná importante, não vão mais lembrar de Nhá Taquiti- disse a índia velha com um sorriso amargo no rosto - Játáti também cresceu, mas diferente de branco, nunca juntou riqueza, nem ganhou importância...
“Játáti não era a índia mais bonita da tribo, mas era de longe a que fazia mais sucesso com o sexo oposto. Sempre tinha um sorriso estampado na cara e uma palavra gentil para quem quisesse conversar com ela, fosse gente ou bicho. Todo o povo da tribo acreditava que Játáti falava língua de macaco, pois toda noite ela contava longas histórias para o Rore até que os dois finalmente caíssem no sono. Além disso, aquele macaco danado sempre parecia entender as ordens dela.
Embora os rapazes da aldeia vivessem correndo atrás dela como mosca em torno do mel, foi o índio mais franzino que conquistou o seu coração. O nome dele era Arú, melhor conhecido na tribo como “aquele que sonha acordado”. Enquanto os demais rapazes passavam o tempo lutando, caçando ou pescando, ele apenas se embrenhava na mata e seguia por horas a fio o rastro de algum animal ou o canto das aves.
Arú estava longe de ser o melhor da tribo na arte da caça e da pesca, pois não gostava de matar os animais nem para comer, coisa que ninguém entendia. Mas Játáti também não era grande coisa na preparação dos paparuto...Aqueles dois não se pareciam com os demais! A gente tinha a impressão de que eles viviam com a cabeça nas nuvens!
Os paparuto eram o prato predileto dos rapazes, meio como a batata frita é pra vocês, meus -kra. Por isso, as jovens da aldeia competiam pela fama de ser aquela que faz os bolinhos mais gostosos. Játáti sempre começava o preparo do bolinho com muito zelo. Ralava a mandioca, espremia a massa no tipiti para tirar todo o excesso de líquido. Depois espalhava a pasta de mandioca meio seca sobre as folhas de bananeira e cobria com pedaços de carne de caça e uma nova camada de pasta de mandioca. Ao final, fechava o embrulho e botava tudo para assar sobre uma pedra chata e muito quente, recoberta por folhas e terra.
O problema é que após colocar os bolinhos para assar, sempre acontecia alguma coisa que fazia com que ela se esquecesse deles: ou uma Arara-canindé cruzava o céu sobre a aldeia, ou uma saíra-sete-cores se punha a cantar e ela se perdia em devaneios pensando em como as suas penas coloridas ficariam lindas em um novo bracelete de palha. Os paparutos dela sempre terminavam assando por tempo demais e ficavam incomíveis! Mas isso não parecia perturbar Arú, que comia todos até o fim, enquanto eles dois contavam histórias e riam em torno da fogueira.
Um dia Arú se mudou para a rede onde dormiam Játáti e Rore. Logo o povo da tribo passou a comentar com malícia que aqueles dois pareciam não fazer mais nada além de conversar a noite inteira. Quando alguém espichava o ouvido na direção deles, sempre escutava um pedaço de lenda ou expressões de encanto com a magia do universo. A lua já ía baixa no céu e boa parte da aldeia dormia profundo quando algum ouvido atento percebia os guinchos de Rore: qui! qui! qui! Ele havia caído da rede e estava contrariado por ter sido expulso daquele paraíso de calor e aconchego. Nessa hora o casal precisava de um pouco de privacidade...”
- Agora vamu durmi que amanhã é outro dia.
Voltar
