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Se você se preocupa em saber quais histórias são verdadeiras e quais são ficção, lembre-se de que a história muda conforme aquele que a conta, pois todas elas sempre carregam algo de verdadeiro e muito da fantasia do escritor. Afinal, neste mundo das redes sociais, mesmo quando pretendemos estar contando a verdade sobre nós, redigimos uma ficção.

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Minuto de Prosa com Vera Bak

Nessa crônica-conto, a autora fala sobre a importância de cultivarmos o prazer da conversa no nosso dia a dia e comenta o fato de que está desaparecendo o tempo em que mantínhamos conversas casuais com os motoristas de taxi do ponto mais próximo, conhecidos de toda a família.

Ilustração gerada pelo chatGPT

- Está começando mais “Um minuto de Prosa com Vera Bak” e eu gostaria de mandar um alô pro seu Gerônimo, meu motorista de taxi predileto do ponto ali do Bourbon. Muito gente boa, o seu Gerônimo. “Aquele abraço, meu amigo”.

O tema da nossa conversa de hoje, meu caro ouvinte, é uma reflexão sobre mais um dos hábitos que estamos perdendo na atualidade: as conversas com o taxista. No meu caso, isto é um hábito herdado de minha mãe, que mantinha uma prosa longa de dar gosto com qualquer taxista que encontrasse, não importando a sua idade, nível cultural ou etnia. Ao longo dos anos, ela foi se tornando conhecida de todos os motoristas da praça. Alguns mantinham com ela uma conversa respeitosa, como se ela fosse a mãe deles. Alternavam um tom confessional com previsões do tempo, últimas notícias sobre a política e reclamações dos filhos. Outros, já eram mais saidinhos e partiam logo para o ataque daquela senhora bom partido, aposentada, com casa própria e renda garantida.  Creio que, passados os anos, agora chegou minha vez de cair neste estereótipo. Seu Gerônimo, tenho certeza, começou nossa prosa carregado de malícia no dia em que nos conhecemos. É a força do hábito (deles), se você me entende...

Naquela manhã, eu tinha ido ao Bourbon resolver alguns problemas, e, na saída, resolvi pegar um taxi no ponto ali em frente. Acabei tendo de aguardar sob a chuva fina que chegasse a minha vez enquanto o cadeirante que estava à minha frente enfrentava dificuldades para embarcar em um carro de pequeno porte com sua cadeira de rodas e as sacolas de supermercado. 

- Caramba, esse senhor é um herói. Tenho a maior admiração por gente que não desiste frente às dificuldades da vida. E eu que vinha cabisbaixa, me lamuriando devido ao mau tempo!  – comentei com o motorista, assim que me acomodei no banco traseiro.

- Pois é, eu tenho uns passageiros assim, que já tem bastante idade e continuam muito independentes, cuidando da própria vida. Veja que nem o mau tempo impediu esse senhor de fazer as compras de mercado.

- É, dizem que esse tempo ainda vai durar uns dias. E está prevista uma nova onda de frio para a semana que vem! 

- Tempo frio e chuvoso é bom para os fazedores de bolinho de chuva. A senhora faz bolinhos de chuva? – Neste exato momento o taxi parou no sinal vermelho e o motorista se virou para me olhar nos olhos. Duas olhos azul claro me encaravam, emolduradas por um par de bochechas coradas e um cabelo todo branquinho. Ele tinha o ar bonachão e meio safado de alguém que se criou no interior, e passou a infância jogando milho para as galinhas que ciscavam soltas no entorno da casa. 

Retribuí o sorriso, enquanto avaliava rapidamente as intenções de sua pergunta. “Se eu disser que sim, ele se convida para fazer o lanche da tarde lá em casa”, foi o que concluí. Mas como me sinto francamente desinteressada por encontros casuais deste tipo desde que meus hormônios sofreram uma crise profunda na menopausa, respondi:

- Não, não sou boa na cozinha. Gosto mesmo é de trabalhos manuais.

 - O que a senhora gosta de fazer?

- Gosto de pintar caixas, bordar retalhos de feltro e costurar.

- E a senhora faz isso para ganhar renda?

Novamente me pus a refletir sobre o que ele dizia. Ele parecia ter me classificado como baixa renda, pois eu estava com uma aparência meio descuidada. Embora tivesse pintado e cortado o cabelo naquela manhã, estava vestida muito à vontade. Usava a calça de abrigo esportivo em que minha cachorra havia aberto um pequeno furo com os dentes, posteriormente coberto com a inicial do meu nome. Realmente, eu nunca fora vaidosa. Mas agora que estava ficando idosa, minha autoestima tinha ido pro buraco. Essa história da mulher se tornar invisível após os quarenta tinha se tornado desculpa para eu me abandonar.

- Não – respondi – eu faço para GASTAR renda. Na verdade, eu gasto um bocado de dinheiro em material. Como nunca achei que meu trabalho fosse suficientemente bom para ser vendido, eu acabo dando aos meus amigos todos os trabalhos que eles elogiam.

-A senhora pode estar sendo muito exigente. Se colocasse seus trabalhos à venda, com certeza iria achar comprador.

Novamente o assunto morreu. Ele parecia estar procurando novo tema de conversa, mas em vão. Se eu não era do tipo “dona de casa”, o que seria?

- Além de gostar de fazer trabalhos manuais, eu também escrevo. Publico meus textos em um blog.

E por aí seguiu a conversa. Ele me perguntou que tipo de texto eu escrevia, quais eram meus escritores estrangeiros e brasileiros prediletos, como eu criava meus personagens, se escrever era muito cansativo, se eu usava IA nos meus textos, que línguas eu falava. Há muito tempo um homem não fazia tanto esforço para conhecer os assuntos que me interessam. Aliás, nem homem, nem mulher, nem família. - ninguém. Me dei conta de que as conversas que tenho são cada dia mais distantes do meu interesse. Parece que eu só escuto. E agora que está chegando o dia da eleição para presidente, quando qualquer assunto pode gerar uma crise profunda com os amigos ou a família, a vida parece ter virado um Uber Comfort no “modo silencioso”. Nos raros momentos em que conversamos, é para falar sobre as mil e uma maneiras de gastar dinheiro. De preferência em coisas belas e desnecessárias.

- Seu Gerônimo foi um prazer conhecê-lo.

- Igualmente, dona Vera. Aliás eu queria dizer, se a senhora não se importar, que a sua voz é muito bonita. Lembra a voz da Íris Lettieri, aquela dona que anunciava os voos no aeroporto.

- "Atenção, senhores passageiros. Taxi Gaúcha, com destino ao Centro Histórico e escala no bairro Auxiliadora, início de desembarque pelo portão traseiro. Senhores passageiros, última chamada."

- Ha ha ha. Foi um prazer ter a senhora como passageira. Espero que nos encontremos novamente em breve. ‘Au revoir!’

- ‘Magnifique’, seu Gerônimo. Vou lembrar da nossa conversa com carinho e torcer para que os nossos caros ouvintes continuem com o tempo e o ânimo necessários para cultivar o hábito de conversar com os taxistas. E se o seu Gerônimo estiver me ouvindo, eu gostaria de lhe enviar um abraço e de lhe prometer que da próxima vez que nos encontrarmos eu vou avisar, em alto bom som para que o senhor possa me escutar do seu taxi, o embarque de todos os passageiros que estiverem à minha frente na fila.

E boa viagem!

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Tags: conversa com motorista de taximodo silencioso do Uberminuto de prosa

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