A saga da construção do primeiro arranha-céu do Brasil
A construção do Edifício Martinelli na década de 1920, o primeiro arranha-céu do Brasil, só foi possível graças ao espírito empreeendedor e aventureiro de Giuseppe Martinelli, um imigrante italiano que fugiu ainda jovem da Toscana devido ao caos econômico que se seguiu à unificação da Itália.

Ilustração criada pelo Bing Image Creator
Giuseppe examinava com paixão as plantas do edifício que havia encomendado a um conhecido arquiteto húngaro, quando sua mulher entrou no escritório trazendo uma xícara de café fumegante.
- ‘Quem diria que, trinta anos após cruzar os mares em direção à esta terra de oportunidades, um pobre pedreiro da Toscana se tornaria proprietário do primeiro arranha-céu do Brasil!’, ele proclama em voz alta, tamborilando os dedos em sua mesa de Jacarandá-da-Bahia. ‘Bom, é verdade que por enquanto a obra continua parada, mas eu hei de concluir meu arranha-céu!’
Sob o olhar orgulhoso de sua esposa, ele bebeu o café com cuidado. ‘Só falta eu derreter novamente o meu bigode, mulher! Por que você não trouxe o café na xícara com bigodeira?’, ele disse, disfarçando seu recente desvario com um tom de voz mais grossa. Giuseppe Martinelli estava ciente de que seus acessos de vaidade não eram nada bem-vistos pela sociedade paulistana ...
- ‘É hora de sair, querida. Tenho um compromisso com uma comissão de peritos. Quem sabe hoje eu consiga que a prefeitura suspenda o embargo da obra!’. Ele então se levantou, inspecionando com cuidado seu reflexo no espelho. Vestido de acordo com os padrões de elegância masculina europeia, ele usava um terno de três peças, colarinho alto e rígido envolto por uma gravata de seda, acompanhados de abotoaduras e relógio de ouro guardado no bolso. Antes de pegar sua bengala, espalhou meticulosamente um restinho de pomada húngara que havia se acumulado nos cantos da boca devido ao contato com a bebida quente.
Há poucos meses a construção do edifício Martinelli havia sido embargada pela prefeitura, pois o prédio estava sendo construído sem alvará nem licença municipal. O uso do concreto armado era uma novidade naquela época, e ninguém entendia como a combinação de cimento e ferro poderia suportar cargas tão mais elevadas do que a construção tradicional. Parecia impossível que uma torre assim tão magra e alta continuasse em pé. O povo acreditava que o prédio estava prestes a desabar, sendo que os próprios construtores alimentavam este boato. Muitos evitavam de caminhar na mesma calçada da obra, imaginando uma catástrofe iminente.
O próprio Vilmos Fillinger, que havia projetado o prédio, resolveu abandonar a obra quando Martinelli decidiu que, ao invés dos 12 andares originalmente planejados, o prédio atingiria os 100m de altura. Martinelli e seu sobrinho assumiram então a obra e decidiram que a cada novo andar construído, um teste de carga seria realizado para verificar se a obra poderia prosseguir. Este teste era feito empilhando uma série de barras de ferro na nova laje. Deste modo a construção avançou até o 24° andar antes de ser embargada.
Porém, após realizarem uma série de cálculos estruturais, os peritos decidiram que o prédio poderia ter 25 andares e o embargo foi removido. No intuito de provar a todos que o prédio era seguro, Martinelli decidiu acrescentar ao seu topo um palacete de 5 andares, com 15 cômodos luxuosos e para lá mudar-se com sua família.
- ‘Mas tio, a prefeitura não limitou a construção do prédio a 25 andares? Você não tem medo de que o prédio possa vir a desabar?’, disse seu sobrinho, que trabalhava como engenheiro responsável pela obra.
- Eu não seria o homem rico que hoje sou, se me deixasse governar pelo medo. Quando os navios mercantes da Europa deixaram de vir para o Brasil, com medo de serem bombardeados pelos submarinos alemães, que singravam os mares à caça de navios inimigos, eu fundei a minha própria empresa de navegação, a Lloyde Nacional. Ganhei muito dinheiro confiando na minha boa estrela e fazendo o transporte de mercadorias de lá para cá.
A construção havia atingido o 26° andar, quando um curto-circuito na fiação elétrica provocou um incêndio de grandes proporções, alimentado pela proximidade do fogo com materiais inflamáveis. Durante mais de doze horas, a população acompanhou ansiosa a luta dos bombeiros contra a falta de equipamentos adequados. Auxiliados por policiais civis e militares, e pelos operários da obra, os bombeiros formaram um cordão humano, passando os baldes de água de mão em mão escada acima, até chegarem ao teto da construção.
Nos dias que se seguiram ao incêndio, as inúmeras reportagens publicadas sobre o assunto relembrariam o público dos diversos acidentes mortais com operários durante a construção e do medo generalizado de que o prédio desabasse, incapaz de aguentar o próprio peso. Começava assim a superstição de que o prédio era maldito e de que ele projetaria uma sombra tão imensa sobre o centro de São Paulo, que os prédios vizinhos ficariam permanentemente no escuro.
Apesar de todos os contratempos, Martinelli construiu o arranha-céu com todo o requinte possível: mármore de Carrara, cimento escandinavo, vidros belgas, espelhos de cristal, ornamentos rebuscados de ferro moldado à mão nas sacadas e portas, e uso de mão de obra qualificada, com a vinda de 90 artesãos da Espanha e Itália, o que custou à ele uma imensa fortuna.
O prédio terminou sendo inaugurado no ano da Quebra da Bolsa de Nova Iorque (1929), que resultou no congelamento do mercado imobiliário paulistano, fazendo com que o empresário não tivesse o retorno financeiro necessário para cobrir os empréstimos feitos por ele na Itália. Isto fez com que Martineli decretasse falência, e entregasse o controle do arranha-céu ao governo italiano.
Giuseppe Martinelli faleceu em 1946, pouco antes que o edifício fosse confiscado pelo governo brasileiro durante a guerra.
Esta crônica foi inspirada na história da construção do Edif. Martinelli, o primeiro arranha-céu do Brasil. Os diálogos aqui apresentados não são baseados em relatos, mas criados com liberdade de expressão.
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