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A Teiniaguá

Neste capítulo final de uma visão alternativa da lenda gauchesca A Salamanca do Jarau e a Teiniagua, você descobrirá o que acontece após a chegada dos magos e da princesa moura ao Cerro do Jarau. E prepara-se para conhecer um novo personagem hilário!

 

A princesa moura, o sacristão e o demônio Anhã (by chatGPT)

A travessia do Atlântico, desde a península ibérica até as costas daquele continente, havia sido árdua. Mas a jornada por terra fora ainda pior. Tinham atravessado florestas habitadas por sucuris monstruosas, tribos de índios canibais e rios tão largos e tempestuosos que mais pareciam mares.

Quando finalmente chegaram ao Cerro do Jarau, mal podiam acreditar na beleza daquelas terras! A imensidão dos pampas verdejantes, a brisa perfumada, o canto dos quero-queros! E, como se tudo isso não bastasse, um pôr do sol incandescente, cujos últimos raios acariciavam o arranjo circular de rochas que outrora lhes aparecera em uma visão na Cova de Salamanca.

Extasiada pelo fim da jornada, a princesa moura despiu o manto e abriu os braços para sentir a brisa contra a pele.

Johara, este era seu nome, tinha uma beleza perturbadora, capaz de fazer um homem perder a razão. Seus cabelos negros desciam em ondas lustrosas pelas costas, emoldurando grandes olhos amendoados, de cujas pupilas brotavam cintilações verdes. Os lábios carnudos, a cintura estreita e os quadris generosos completavam uma figura que se movia com a graça indolente das criaturas do deserto.

De sua fronte pendia um diadema de ouro filigranado, cravejado de diamantes. Ao centro, uma imensa pedra vermelha, lapidada como um rubi, parecia valer uma fortuna. Mas os olhos atentos dos magos suspeitavam que, por trás daquele brilho, se ocultava um mistério.

Ibrahim reparou que o sol estava prestes a desaparecer e que o sereno já umedecia suas vestes.

— É hora de procurar abrigo e acender uma fogueira para espantar as feras noturnas.

— Ibrahim, veja! — exclamou Yusuf, apontando para a encosta do cerro. — Uma caverna! Talvez possamos passar a noite ali.

Pouco depois, já acomodados no interior da gruta, fizeram uma refeição ligeira e se prepararam para dormir, ansiosos pelos mistérios que os aguardavam.

Foi então que, das profundezas da caverna, que não haviam ousado explorar, começou a surgir um zumbido surdo, que logo se tornou ensurdecedor. E, para seu espanto, apareceu um homenzinho que saltitava e ria como um celerado em meio a uma nuvem de moscas varejeiras.

— Há, há, há! Uuui! Aí não, sua danadinha! Para!

Os viajantes acompanhavam a cena de boca aberta.

O homenzinho tinha o corpo besuntado de urucum e trazia no pescoço um colar de sementes, dentes e lascas de jaspe avermelhado. Fibras tingidas de vermelho enfeitavam seus braços e tornozelos. Da cintura pendiam ossos, garras e pequenos amuletos que se entrechocavam a cada passo de dança.

Rodopiava descalço e, de tempos em tempos, interrompia os requebros para apanhar uma das moscas que formavam uma espécie de diadema sobre sua cabeça. Então a engolia, deliciado, e retomava a dança.

Ao perceber a presença dos estranhos, abriu um sorriso malicioso:

— Aguyjevete, Johara porã! E meus karai guasu! Que bons ventos trouxeram tão ilustre comitiva aos meus domínios?

— Quem sois? — perguntou Ibrahim.

— Os índios me chamam Anhã. Os padres dizem que sou Satanás. Eu deixo que me chamem como quiserem, contanto que não me aborreçam.

— E como sabias da nossa chegada?

Anhã soltou uma gargalhada.

— Então não sabeis por que viestes parar aqui? Ah, esses sábios! Conhecem os segredos das estrelas, mas ignoram os mistérios que carregam consigo!

Apontou para o diadema da princesa.

— Há milhões de anos, uma pedra de fogo atravessou os céus e se partiu antes de atingir a Terra. Um de seus fragmentos caiu aqui, deixando esta cicatriz na superfície da terra. Outro foi morrer nas areias do deserto de onde viestes. E daquela ferida nasceu o vidro vermelho que enfeita vossa fronte, Johara.

A princesa levou a mão ao diadema.

— Mas o que isso tem a ver comigo?

— Ah, minha bela! As pedras que um dia foram irmãs continuam a se procurar, mesmo separadas por oceanos e desertos. Vosso cristal não esqueceu o Jarau. E, quando vosso coração se agita, ele desperta as forças adormecidas sob estas rochas.

Johara retirou o diadema. Os quatro se inclinaram sobre a pedra, que agora emitia uma luz vermelha pulsante, como se estivesse viva.

— Quando Manahára, o Olho de Anhã, meu espião predileto, anunciou vossa chegada, fiquei encantado! Há séculos suporto a companhia destes índios. Não ambicionam riquezas nem poder, tampouco se deixam seduzir facilmente pela luxúria. Faltam-lhes os defeitos da civilização!

Fez uma pausa para examinar Johara dos pés à cabeça.

— Mas vós, criatura sublime, sereis muito útil ao meu propósito de despertar a cobiça entre os homens...

Antes que ela pudesse reagir, Anhã inspirou profundamente e soprou-lhe o hálito ardente.

Num instante, a princesa transformou-se em uma lagartixa, que conservava sobre a cabeça o imenso cristal vermelho. Aterrorizada, refugiou-se numa fenda da rocha e desapareceu.

Satisfeito com a própria travessura, o demônio sumiu nas profundezas da caverna, deixando atrás de si apenas um cheiro de enxofre e diminutas pegadas fumegantes na lama.

Nos anos seguintes, os magos permaneceram no Jarau, fortalecendo seus poderes com as energias que emanavam do local. Aprenderam a transformar pedras semipreciosas em tesouros e, pouco a pouco, a fama da caverna se espalhou pelos pampas.

Um século mais tarde, ainda se dizia que as fortunas dos antigos proprietários de terras da região haviam nascido dos conselhos daqueles feiticeiros. A gruta passou a ser conhecida como a Salamanca do Jarau.

Mas ninguém ousava penetrar em suas profundezas. Contava-se que quem ali buscasse riquezas teria de enfrentar provas aterradoras, permanecendo impassível diante de tudo o que visse e ouvisse.

A duzentos quilômetros dali, na outra margem do Rio Uruguai, havia sido fundada a Missão Jesuítica de São Tomé, destinada a converter os guaranis ao cristianismo e consolidar a presença espanhola na região.

Entre os jovens religiosos vindos de Córdoba para trabalhar nas missões estava Baltasar de Villalobos.

— ¡Buenas, Baltasar! ¿Qué tal, hombre? ¿Ya terminaste tus quehaceres en la iglesia?

— ¡Buenas, hermano! Sí, por hoy ya está todo listo. Voy al río a bañarme, que hace un calor de mil demonios.

— ¡Vaya con Dios, entonces! Pero no tardes, que pronto anochecerá.

— No te preocupes, hermano. Estaré de vuelta antes de que suene la campana.

Baltasar era jovem e vigoroso, e o ambiente pudico da missão o entediava. Por isso, ao cair da tarde, costumava caminhar até um remanso do rio onde as índias se banhavam. Escondido entre a vegetação, observava-as despir suas túnicas de algodão e entrar na água, onde brincavam despreocupadas, com os seios à mostra.

Num daqueles dias, sua atenção foi desviada por um clarão avermelhado.

Sobre um rochedo, uma lagartixa se aquecia aos últimos raios do sol. Na cabeça trazia uma pedra preciosa, que refletia os raios de sol em um clarão vermelho.

Maravilhado, Baltasar apanhou a camisa de algodão que deixara secando sobre a relva e, num golpe rápido, lançou-a sobre a criatura.

Foi o suficiente para romper a maldição que pesava sobre Johara havia mais de um século.

No lugar da lagartixa surgiu uma mulher. Em carne e osso. Aliás, que carnes!

Nua como viera ao mundo, a princesa olhou para Baltasar, que demorou a se recuperar do espanto. Quando finalmente voltou a si, entregou-lhe a batina para que se cobrisse.

— ¿Cómo te llamas, hermosa?

— Johara.

— ¿Y qué significa tu nombre?

— Pedra preciosa, meu jovem. Mas há pedras que escondem uma maldição...

Quando chegaram à missão, já era noite fechada. Sem saber onde abrigar a desconhecida, Baltasar resolveu escondê-la na sacristia até que os padres adormecessem.

Abriu as gavetas do grande armário de cedro, ornamentado com entalhes feitos pelos índios, até encontrar uma alva cuidadosamente dobrada. Johara despiu a batina suada e vestiu a longa túnica branca, ajustando-a à cintura com um cíngulo.

Nem mesmo aquela roupa conseguia disfarçar sua beleza! Baltasar se perturbava ao pensar que a alva, símbolo de pureza, agora tocava a pele nua de uma princesa moura encantada.

Para afastar os pensamentos pecaminosos, foi buscar uma garrafa de vinho reservada à missa. Mas, ao encontrá-la, hesitou.

Estaria roubando o sangue de Cristo para agradar aquela mulher? Não, afinal o vinho ainda não fora consagrado...

Tranquilizado, regressou à sacristia com a garrafa.

O vinho era delicioso e descia pela garganta feito mel. Depois de três garrafas e de ouvir as extraordinárias aventuras de Johara, Baltasar já se sentia seu mais íntimo confidente.

Que homem belo e atencioso, pensava a princesa, que no último século só tivera lagartos por companhia.

Baltasar, por sua vez, estava perdidamente apaixonado. Como tantos outros antes dele, acabava de perder a razão.

Pobre sacristão que sou! Meu futuro na Igreja está prestes a se escoar pelo ralo. Mas como resistir a esta criatura?

— Mi tesoro, mi amor... Ven a recostarte a mi lado... — murmurou Johara.

Entre confidências e carícias, acabaram se entregando ao amor sobre o chão da sacristia.

Foi quando o cristal vermelho, agora repousando entre as vestes espalhadas pelo piso, começou a emitir uma luz intensa.

O primeiro tremor foi tão breve que Baltasar julgou sentir uma vertigem. Mas logo o chão voltou a estremecer, desta vez com violência suficiente para derrubar um castiçal. O altar se deslocou, rachaduras surgiram nas paredes e os sinos começaram a tocar sozinhos.

— ¡Dios mío! — exclamou Baltasar, agarrando-se à mesa do altar.

Johara não parecia assustada. Pelo contrário, seus olhos haviam adquirido aquele estranho brilho esverdeado.

— ¿Qué está pasando, mujer? ¿Es un castigo de Dios?

— No, Baltasar. Es una llamada.

A agitação fez os religiosos saírem em disparada de seus aposentos. Terremotos não eram comuns naquela região.

A porta da sacristia se abriu de repente.

Era o padre superior, que vinha salvar os objetos litúrgicos de prata lavrada. Ao deparar com Baltasar e a princesa moura, seu rosto ficou púrpura de ódio. Sem lhes dar tempo de explicações, expulsou-os da sacristia, nus em pelo.

A comunidade inteira, reunida no pátio para escapar do terremoto, contemplou o espetáculo.

Os índios aproveitaram a ocasião para conhecer melhor as particularidades daqueles corpos que raramente viam descobertos. Os padres, por sua vez, já imaginavam os suplícios que teriam de impor à própria carne para expiar o tormento causado pela visão daquela mulher, que só podia ser a encarnação do demônio.

Baltasar e Johara mal tiveram tempo de vestir as túnicas de algodão oferecidas pelos índios e recolher seus poucos pertences antes de serem expulsos da missão aos gritos pelo padre superior.

Baltasar deixou São Tomé cabisbaixo, carregando uma trouxa com o que restava de sua antiga vida. À sua frente seguia Johara, descalça, com os cabelos soltos ao vento e o cristal vermelho brilhando na fronte.

Ela caminhava com a leveza de quem acaba de receber uma dádiva. De tempos em tempos, voltava-se para o amado e lhe sorria, encantada com a perspectiva de levá-lo para viver consigo na Salamanca do Jarau.

— ¿Adónde me llevas, Johara? — perguntou Baltasar, aflito.

— A mi casa, mi amor. Allí nadie nos molestará.

— ¿Y dónde queda tu casa?

Johara apontou para o horizonte, onde as últimas estrelas desapareciam sob a luz da madrugada.

— Allí donde las luces rojas brotan del suelo

Baltasar suspirou. Não sabia se acabara de encontrar a felicidade ou se se aproximava das portas do inferno. Só o tempo traria a resposta...

Longe dali, nas profundezas do Cerro do Jarau, um homenzinho despertou sob seu diadema de moscas varejeiras. Espreguiçou-se, apanhou uma das moscas e a engoliu com satisfação.

— Ah, finalmente! — exclamou, aos saltos. — Agora, sim, teremos diversão!

Desde então, nas noites em que o povo da região de Quaraí sente a terra estremecer, todos voltam os olhos para o Cerro do Jarau, à procura das luzes vermelhas que escapam pelas fraturas de suas rochas.


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Tags: a salamandra encantadaMissão de Sao ToméSalamanca do jarau

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