Como se Fosse Família (Capítulo Final de Contos de Taquiti)
Neste capítulo chegamos ao fim dos Contos de Taquiti e conhecemos a verdadeira história de Awkê e de Nhá Taquiti. Obrigada por nos acompanhar até aqui. Desejamos que esta lenda indígena tenha sido do seu agrado.
Caso você não tenha ainda lido os contos precedentes, por favor comece a ler história pelo início clicando neste link.

A mãe e a babá disputam pelo amor das crianças (ilustração do chatGPT)
As crianças haviam passado o dia inteiro na maior expectativa. Ao chegar, Nhá Taquiti lhes prometera que naquela mesma noite contaria o desfecho da história de Awkê.
Assim, mal terminaram de jantar, os gêmeos subiram correndo para o quarto e se enfiaram na cama, de onde suplicaram em coro para que a babá começasse logo a contar a história. Com os olhos marejados de lágrimas, que ela se esforçava para disfarçar, Taquiti iniciou o relato:
“Quando os homens da tribo chegaram ao lugar onde tinham jogado as cinzas de Awkê, encontraram uma casa grande e um homem branco, que falava com eles numa língua desconhecida. Os índios souberam naquele instante que aquele homem branco era Awkê, que havia renascido das cinzas.
Quando os indígenas se aproximaram, ele fez um gesto convidando-os a entrar. E que coisas extraordinárias havia naquela casa! Entre tantos objetos que jamais tinham visto, nenhum os impressionou tanto quanto o pau de fogo, capaz de produzir um estrondo ensurdecedor e matar animais à distância, sem que seu dono precisasse sequer persegui-los.
Nos fundos do terreno, encontraram pessoas negras, enormes animais de cujos úberes jorrava leite como água de um córrego, e bestas de pernas compridas que puxavam o arado na roça e corriam tão velozes quanto as onças. E pensar que tudo aquilo havia surgido por encantamento das cinzas de uma fogueira!
A notícia daquele homem branco e poderoso, que parecia não temer coisa alguma, despertou a curiosidade de toda a aldeia. Mas o que mais intrigava a todos era que, em vez de se vingar dos parentes que haviam tentado destruí-lo, Awkê os recebia com gentileza, como se nada tivesse acontecido.
Curiosa para conhecer melhor o filho e descobrir como ele vivia, Játáti frequentemente tomava a trilha que levava às margens do rio. Lá chegando, banhava-se nas águas enquanto observava a casa à distância, acompanhando com extrema atenção o ir e vir de seus moradores.
Com o tempo, Awkê acabou convidando-a para morar em sua casa e ajudar sua esposa a cuidar do bebê que estava prestes a nascer. Játáti aceitou. Afinal, teria casa, comida e a companhia dos netos. E seria, como sua nora fazia questão de dizer, tratada como se fosse da família."
— E assim termina a história de como nasceu o primeiro homem branco.
A mãe de Mateus e Clara, encostada ao batente da porta, acompanhava o relato com os olhos semicerrados, numa expressão de evidente desagrado. Nhá Taquiti estava passando dos limites ao encher a cabeça das crianças com toda aquela baboseira! Mas os gêmeos pareciam tão maravilhados com a história que ela não sabia muito bem como intervir.
Talvez tivesse chegado a hora de dar um ultimato ao marido para que providenciasse uma mulher mais jovem para cuidar das crianças. Mas ele parecia tão estranhamente apegado àquela índia velha, que tinha idade para ser sua mãe!
— Nhá Taquiti, você conhece a índia Játáti? — perguntou Clara, quando a babá se levantou para apagar a luz.
Taquiti deteve-se diante do espelho da cômoda e contemplou demoradamente o próprio reflexo. Depois, lançou à mãe das crianças um olhar rápido e desafiador, antes de responder com toda a calma:
— Conheço ela desde que nasci.
— Que legal! Você podia trazer ela aqui um dia desses?
— Meus amores, ela está sempre por perto. Vocês com certeza já encontraram com ela.
E, sem acrescentar mais nada, Taquiti saiu apressadamente do quarto, seguindo em direção à porta da rua.
Havia mistérios que era melhor não desvendar diante daquelas almas ingênuas.
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