Como Surgiu o Homem Branco (Contos de Taquiti 5)
Este é o quinto capítulo de uma história escrita por uma mulher branca sobre uma lenda indígena sobre o aparecimento do primeiro homem branco. Desculpe-me pelas ironias contidas no texto, elas não constam na lenda original.
Caso ainda não tenha lido os capítulos que o sucedem, por favor clique aqui (link para o capítulo 1).

Awkê renasce das cinzas (ilustração do chatGPT)
- Hoje vou contar procês como surgiu o primeiro homem branco. Sabia que ele nasceu das cinzas de um índio?
- Homem branco que nem meu pai? – perguntou Mateus, enquanto Nhá Taquiti puxava o lençol de linho e ajeitava a dobra sobre o peito do menino.
- É seu pai. Seu pai – respondeu Nhá Taquiti, com os olhos voltados para a janela aberta, por onde entravam a brisa fresca e o canto dos pássaros noturnos. Ela então deu um suspiro profundo e iniciou o relato:
“Quando Rorê irrompeu na aldeia, vinha fazendo tamanho escarcéu que todas as mulheres que naquela hora descansavam em suas redes abandonaram a sesta e se reuniram em torno dele no pátio central. O macaquinho soltava guinchos agudos, saltava de um colo para outro e disparava em pequenas corridas na direção da mata de onde havia surgido, como se quisesse lhes mostrar alguma coisa. Não demorou para que as mulheres compreendessem seu chamado e se pusessem a segui-lo.
Rorê avançava aos saltos pelas copas das árvores, enquanto as mulheres corriam em seu encalço pelas trilhas que serpenteavam pela mata. O sol já descia no horizonte quando ouviram o choro de uma criança vindo de uma clareira. Ao chegarem, depararam com um bebê recém-nascido, limpo e aconchegado num leito fofo de folhas secas, bem ali, no chão da floresta. Um feixe de luz dourada atravessava a folhagem e iluminava delicadamente seu pequeno corpo. Foi então que uma brisa suave percorreu a clareira, erguendo um punhado de folhas que rodopiaram no ar antes de pousar novamente no chão. Maravilhadas com a beleza daquela cena, as mulheres se aproximaram em silêncio.
Rorê desceu das árvores e, soltando pequenos grunhidos carinhosos, começou a retirar cuidadosamente as folhas que ainda aderiam à pele úmida do bebê. Como não havia ninguém por perto e a criança logo precisaria dos cuidados de uma mãe, as mulheres decidiram levá-la para a aldeia antes que a noite caísse.
Ao chegarem à aldeia carregando um bebê no colo, as mulheres provocaram tamanha comoção entre os demais habitantes que ninguém reparou em Játáti, que vinha um pouco atrás, coberta de sangue, com seus cabelos emaranhados e o rosto banhado em lágrimas. Mas Rorê, fiel ao amor que sentia por ela, aproximou-se cautelosamente, tomou-lhe a mão e a conduziu até a casa para onde o bebê havia sido levado e onde agora era alimentado.
Quando as mulheres perceberam o estado em que Játáti se encontrava, compreenderam imediatamente o que havia acontecido. Mas, como ela rejeitava a criança e se recusava a falar sobre o assunto, o recém-nascido foi entregue aos cuidados de outra mulher da aldeia, que havia parido há pouco.
Awkê, assim se chamava o menino, crescia com uma rapidez inacreditável e continuava envolto no mesmo mistério que marcara todo o período em que estivera no ventre de sua mãe. Sempre que era levado para visitar os parentes que viviam numa aldeia próxima, seus primos contavam que ele se transformava em onça assim que se embrenhava na mata. Outros juravam que assumia a forma de peixe quando mergulhava nas cachoeiras que despencavam sobre os paredões de arenito das redondezas.
Não demorou para que a própria família passasse a temê-lo. Seu comportamento era imprevisível, e ninguém sabia que outros poderes ele ainda poderia manifestar. Corriam rumores de que, mais cedo ou mais tarde, acabaria trazendo uma grande desgraça para todos.
Foi então que seu tio decidiu eliminá-lo. Mas, por mais que tentasse, Awkê sempre reaparecia, firme e forte, como se nada lhe tivesse acontecido.
Sem compreender o que se passava, o menino perguntou certa vez à avó porque desejavam matá-lo. A velha, sentada com uma comprida tábua de madeira entre as pernas, na qual pequenos fragmentos de pedra haviam sido incrustados como dentes, continuou a ralar mandioca, fingindo não ter ouvido a pergunta. Afinal, por que haveria de dar explicações àquele menino que ninguém mais considerava digno de atenção ou afeto?
Até que, por fim, Awkê foi lançado às chamas de uma imensa fogueira. Seu corpo, reduzido a cinzas, foi abandonado junto ao rio, justamente no lugar onde os habitantes da aldeia costumavam ouvi-lo falar numa língua desconhecida, enquanto perambulava solitário pelas margens. Naquela noite, sua mãe chorou sem parar, imaginando como tudo teria sido diferente se ele fosse uma criança como as outras. Seus parentes, porém, fizeram festa. Finalmente estavam livres daquele ser extraordinário! Agora poderiam cuidar de suas próprias vidas, sem ter de se preocupar com os rumores que circulavam pela aldeia. Afinal, que direito tinha aquele menino de ser diferente dos demais?
Passado algum tempo, a mãe pediu que fossem buscar as cinzas do filho, e dois homens seguiram até o local. Mas o que encontraram os deixou assombrados. Onde antes haviam sido abandonadas as cinzas, erguia-se agora uma casa cercada por um pátio, onde um animal, semelhante aos cachorro-do-mato que rondavam a floresta à noite, ladrava furiosamente para os visitantes. Quando a porta se abriu, surgiu um homem de pele tão branca quanto as cinzas que ali haviam sido deixadas. Os homens ficaram extasiados frente à alvura daquele homem. Eles nunca tinham visto algo semelhante em suas vidas.
O homem branco trazia empunhava em seus braços um pedaço de pau ornamentado, apontado na direção deles. Porém, sorria pacificamente e, logo que os índios se aproximaram, começou a falar com eles naquela mesma língua estranha que Awkê costumava empregar quando vagava sozinho pela mata.
O menino rejeitado, assassinado e queimado havia renascido, transformado num homem branco!”
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