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Se você se preocupa em saber quais histórias são verdadeiras e quais são ficção, lembre-se de que a história muda conforme aquele que a conta, pois todas elas sempre carregam algo de verdadeiro e muito da fantasia do escritor. Afinal, neste mundo das redes sociais, mesmo quando pretendemos estar contando a verdade sobre nós, redigimos uma ficção.

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Memórias de um Corcel e sua Rainha Menina

Este conto se baseia na história da vida real de Kristina Vasa, que subiu ao trono da Suécia em 1632, aos seis anos de idade, contada pela ótica de seu cavalo.

 

Imagem gerada por Bing Image Creator

Ainda me lembro do dia em que ela nasceu. Eu pastava mansamente em minha estrabaria, cercado de feno e grãos de aveia, um luxo que poucos cavalos do reino podiam desfrutar àquela época. Na capital do reino e nas regiões vizinhas os aldeões viviam um dia a dia marcado pela pobreza e fome generalizada. Por isso, enquanto eu comia, via as parteiras olharem com um olhar invejoso para o meu bornal, de onde nem um único grão de aveia escapava.

‘Quisera Deus eu pudesse fornecer uma ração assim rica para o meu cavalo, cada vez mais magro e pelancudo, pobre criatura!’, esbravejou a auxiliar da parteira, enquanto limpava suas mãos ainda sujas de sangue em seu avental e examinava o solo com atenção, para ver se conseguia juntar um punhado de grãos perdidos por ali.

‘Não reclama, mulher, nós pelo menos somos convidadas para forrar o bucho cada vez que viemos fazer um parto. E hoje foi um dia especial para todos... Você viu a alegria do rei quando comunicamos o nascimento de seu pequeno príncipe? Todo peludo e com pulmões tão fortes! Mais pareciam os gritos de um taberneiro...’, exclamou entre risos sua companheira.

Pobres criaturas ignorantes! Estavam tão preocupadas em adivinhar como seria a refeição que fariam a seguir que mal se deram conta de que haviam feito o parto de uma menina. Depois, criariam histórias mentirosas, tentando convencer a todos de que o bebê gritava com a voz rouca e forte como a de um garoto. Mas quem já viu um recém-nascido de voz rouca?

A rainha, quando soube que havia dado à luz uma menina, caiu em profunda depressão e passou a ignorá-la de modo obstinado. Abandonada aos cuidados das amas, Kristina cresceu feito um animal sem dono. Ainda pequena, me lembro dos diversos acidentes que aconteceram com ela: uma viga do teto soltou-se misteriosamente e caiu sobre seu berço, uma lufada de vento fez com que ela rolasse escada abaixo e uma ama desastrada deixou que ela caísse de seus braços. Esta queda foi tão forte, que por toda sua vida Kristina ostentaria um ombro mais alto e desenvolvido do que o outro, lhe conferindo uma aparência desgraciosamente assimétrica.

O rei Gustavo Adolfo, o Grande, estava a maior parte do tempo ausente do castelo devidos às guerras. Enquanto isso, o estado mental da mãe de Kristina ia se degradando e berros cada vez mais altos se faziam ouvir pelas janelas do castelo. Pouco depois de cada um destes arroubos da rainha Maria Eleonora, minha menina aparecia na estrebaria e, enquanto penteava minha crina com seus pequenos dedos, eu via lágrimas escorrerem pelo seu rosto.

Apesar de todos os seus infortúnios, seguido eu a via passar correndo, vestida de menino, o suor escorrendo em sua testa e seus cabelos soltos ao vento. O rei havia ordenado que ela fosse criada como um príncipe, e assim foi feito. 

Aos seis anos, minha querida princesa perdeu seu pai, morto em campo de batalha. A mãe, que já vivia apresentando um estado de espírito pouco invejável, acabou mergulhando em profunda depressão, às portas da loucura. Kristina que até então vivia leve e solta, agora passaria os dias confinada em um quarto escuro, com paredes e cortinas negras, cheio de símbolos funerários por todos os lados. Maria Eleonora havia ordenado que o coração de seu pai fosse arrancado do seu peito e guardado em uma caixa de ouro, ao alcance de suas mãos. Os empregados do castelo sussurravam entre dentes que, a cada noite, tal caixa era colocada no alto do leito em que a rainha e sua filha dormiam. Nas raras vezes em que eu via minha princesa passar, seu rosto estava sempre branco como uma folha de papel, e seus dedos se mantinham apáticos, agarrados à bainha de sua veste, esquecidos do toque sedoso de minha crina.

A situação no castelo ficou tão difícil, que o Conselho de Regência da Suécia decidiu que a rainha seria enviada para o castelo de Gripsholm, onde seria confinada por razões políticas, e Kristina Vasa sucederia seu pai no trono da Suécia. Quando isto aconteceu, em 1632, minha querida tinha apenas seis anos! Seu reino incluía, além da Suécia, a Finlândia e a Estônia, bem como partes da Noruega, da Alemanha e da Rússia.

Ver sua mãe destruída pelo amor e pela dependência da existência de seu marido, e assistir ela transformar a memória de seu pai em uma presença quase mítica transformaram minha querida em uma alma selvagem, independente e refratária ao casamento. Na corte ela se tornara famosa por seus acessos de mau-humor e pelo seu comportamento implacável com seus súditos.

Mas tudo pareceu mudar no dia em que Kristina fez 12 anos e seus tutores afinal concordaram com que ela realizasse o seu maior sonho: cavalgar! Nesse dia, seus dedos agarraram com avidez minhas rédeas no exato momento em que ela se equilibrou sobre a sela e, meio aos trancos e barrancos, desfilamos pelo pátio em êxtase, indiferentes à chuva fina que caia sem parar. Ao descer da sela, ela me envolveu o pescoço com seus pequenos braços e, com um beijo tímido, declarou ‘Eu te batizo Natt’.  Dizem por aí que ela cavalgava feito homem, mas juro que isto é pura mentira! Kristina ia sentada de lado em sua sela de amazona, como todas as mulheres naquela época. Não lembro, aliás, de outra ocasião em sua vida em que ela tenha se portado como uma mocinha...

Em pouco tempo minha rainha se tornou uma amazona excepcional. Passávamos longas horas cavalgando pelos campos do palácio, acompanhadas de seus cães e de uma sensação incrível de liberdade. Eu nunca a via tão feliz como quando ela estava comigo...

Eventualmente eu a via passar acompanhada de suas damas da corte. Ela destoava das demais, sempre vestida em suas roupas masculinas, com sua voz grossa e sua baixa tolerância com a rotina e as convenções sociais que pareciam moldar o comportamento de todas aquelas mocinhas. Jamais a vi apresentar interesse sexual ou romântico pelos rapazes da corte. Mas um dia em que ela desapareceu, e fiquei uma semana inteira sem vê-la. Me perguntava que doença era essa que havia acometido minha rainha, que a impedia de cavalgar.

Quando ela afinal reapareceu, vinha de braço dado com aquela que eu viria depois a descobrir que se chamava Ebba Sparre, sua nova dama de companhia. Reparei que ela ostentava magníficas bochechas rosadas e um par de olhos esfuziantes, maldita traidora. Nos doze anos em que nos conhecíamos, ela jamais havia me abandonado por tanto tempo sem uma justa causa! Dali em diante eu passaria horas a fio escutando elas discutirem sobre questões de gênero, cultura e questionamentos filosóficos. ‘Belle’, ela dizia, ‘Estocolmo em breve será conhecida como a “Atenas do Norte” Até mesmo Descartes me prometeu que virá passar um tempo em nossa corte’.

Ninguém mais disfarçava o quanto achava chocantes os laços afetivos e sexuais que ostentavam Kristina e sua amada Belle. Para quem ousasse criticar, Kristina respondia ‘A alma não tem sexo’. Certo dia, minha rainha teve a ousadia de apresentar sua Belle para o embaixador inglês como sendo sua “companheira de cama”! Além de Belle, minha querida cultivaria laços intensos com diversas outras mulheres jovens, porém nenhuma jamais seria tão importante para ela quanto Belle.

Com o passar dos anos, minha saúde e aparência se degradaram. Por isso, quando afinal chegou o dia da cerimônia de coroação, aos 24 anos de idade, minha querida foi presenteada com um belíssimo alazão branco, cuja cauda e crina eram tão longas que tocavam o chão. Kristina deveria seguir a tradição de participar da procissão da coroação, entrando na cidade de Estocolmo montada em seu cavalo. Porém minha querida não respeitava jamais as tradições...

Incapaz de me trair, sua velha companheira, Kristina optou por participar da procissão em uma belíssima carruagem, especialmente trazida de Paris para a ocasião. Seu novo cavalo, a quem deu o nome de Måne, veio troteando logo atrás, em posição de destaque entre os mais de 1500 cavalos que fizeram parte do evento. Ostentando uma pesadíssima capa com quatro metros de cauda, toda rebordada com pequenas coroas em fio de ouro e pérolas, minha rainha estava deslumbrante! Måne vinha paramentado de acordo, tendo recebido para a ocasião uma sela revestida de veludo purpura, bordada como a capa de minha rainha, e ferraduras de prata. Que tristeza a minha não ter forças para participar de um momento tão importante da vida de Kristina. Foi com secreta alegria que vi minha rival perder suas ferraduras de prata durante a procissão, mas isto foi considerado por todos um sinal de boa sorte.

Apesar dos bons augúrios, apenas cinco anos mais tarde Kristina Vasa renunciou à coroa e transmitiu o poder ao seu primo Karl Gustav, adotando em seguida a religião católica. Em uma manhã de 1655, minha rainha, aos 28 anos de idade, apareceu no estábulo para se despedir de mim antes de partir disfarçada com roupas de homem. Seguiu para Roma, onde viveu até sua morte, aos 62 anos.

Pouco tempo após a sua partida eu morreria, não estando vivo para presenciar a disputa de minha eterna rainha pelos reinados de Nápoles e da Polônia. Embora ela tenha empregado os recursos mais vis nestas disputas por poder, ela soube manter uma intensa correspondência com três papas ao longo de sua vida, e conquistou a rara honraria de ser sepultada em terra consagrada, no Vaticano.

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Tags: kristina vasaimperio da suéciaebba sparreAtenas do Norte

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