A Beleza da Rotina
Reúno aqui algumas elocubraçoes minhas sobre a importância de construirmos uma rotina sob-medida para nossas vidas. Mas será viver exclusivamente de modo rotineiro é suficiente e benéfico para nós?
A rotina e o inesperado se relacionam como o yin-yang em nossas vidas (imagem do chatGPT)
Quando aposentei me deparei com um vácuo em minha vida deixado pelo desaparecimento de uma rotina diária que havia se tornado o pilar de mais de três décadas de minha existência. Após o choque inicial fiz aquilo que vejo muitos ao meu redor fazerem: deixei que minha nova rotina se construísse ao acaso, sob influência das necessidades alheias. Grande erro! Logo descobri a importância de uma boa rotina na regulação do meu sistema emocional e como defesa contra a tendência alheia de ocupar e modelar o uso do meu tempo livre.
Ocupar com tarefas todos os intervalos livres de nossa agenda é algo comum. Por isso há um ditado popular que diz “cabeça vazia, oficina do diabo”. O tempo ocioso é um convite para encher a mente de caraminholas e preocupações exageradas. Por outro lado, sabe-se que a falta de tempo livre acaba com a criatividade. Nesta equação há um meio termo que varia de pessoa para pessoa. O meu ponto de equilíbrio consistiu na criação do meu blog. Foi aqui no blog que o diabo que visitava minha mente vazia resolveu fazer casinha!
Mas o que fazer com as demais horas do dia em que não estou escrevendo? Descobri que a rotina é como uma escultura. Não se pode copiar a escultura de outra pessoa, pois cada um tem sua própria aptidão artística. Assim é com a rotina: cada um deve ter a sua. A rotina pessoal define nossa identidade, pois somos produto daquilo que fazemos repetidamente: o que escolhemos como leitura, o que adotamos (ou não) como atividade física, os amigos com quem nos relacionamos e a frequência com que nos encontramos com eles, e o que fazemos em nossas horas de lazer. Nossa rotina é o pano de fundo de nossas vidas.
Após trabalhar com afinco para criar uma rotina que fosse confortável e tivesse significado para mim, descobri a enorme economia de energia mental que resultava disso. Uma quantidade significativa de pequenas decisões foi eliminada uma vez que defini a trama de detalhes quase insignificantes que constituem o meu dia a dia. A máquina de café Nespresso agora me observa abandonada em seu canto enquanto preparo o café forte e perfumado do meu desjejum. Eliminei das minhas refeições tudo aquilo que significava puramente economia de tempo e de esforço, mas que não me trazia nenhum prazer. Minha lista de compras simplificou-se ao extremo, já não perco mais meu tempo ou dinheiro com coisas que não valem a pena.
Mas após um tempo vivendo minha nova rotina burilada sob medida e confortável me dei conta de que me arriscava a cair no tédio. Descobri que a rotina é como o símbolo do yin-yang, ela deve conter uma amostra do seu oposto dentro dela. Tive de criar tempo para vivenciar o caos. O caos é vida e oportunidade de crescimento. O caos de que falo é formado pelos acontecimentos inesperados, viagens não-programadas, livros escolhidos ao acaso, uma conversa com um desconhecido, um caminho novo na volta para casa, um convite aceito sem convicção. Afinal de contas, uma boa rotina não é aquela em que todos os dias são iguais, mas aquela que nos proporciona estabilidade suficiente para suportar, ou até mesmo usufruir aquilo que é inesperado.
Viver situações inesperadas exige atenção, improvisação e adaptação, rompe com os automatismos e nos obriga a estarmos inteiramente presentes. Contudo, cabe lembrar que a busca permanente por aventuras e pelo inesperado, pode nos dar a impressão de que vivemos intensamente, porém nada mais é do que a fuga de uma vida que não se pode mais suportar. Por isso, da próxima vez em que você se deparar com o medo de “cair” na rotina, lembre-se de que quem vive apenas de novidade pode não permanecer tempo suficiente em lugar algum para criar raízes, e quem vive apenas de rotina pode deixar de crescer. A felicidade está no caminho do meio, em ter uma rotina com portas e janelas para o inesperado.
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